terça-feira, 25 de abril de 2017

"O ÚLTIMO ABRAÇO QUE ME DÁS"

"Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele 
O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em Reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me :- Abrace-me porque é o último abraço que me dá durante o abraço:- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento e, ao afastar-mo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:- Estou aqui para lutar e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no mal estar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido:- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá. Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos."
António Lobo Antunes (visão 12/12/13)

63 MESES


sexta-feira, 21 de abril de 2017

quarta-feira, 12 de abril de 2017

terça-feira, 11 de abril de 2017

segunda-feira, 3 de abril de 2017

DIÁRIO

Sempre tive uma "panca" por diários! Antes de os ter, qualquer bloco servia para eu relatar o meu dia a dia. Comecei a escrever na adolescência mas só muito mais tarde, tive o 1º diário a "sério", um diário com a respetiva chave.

Talvez por ser uma pessoa meio stressada, acho que o diário me faz encontrar tranquilidade e paz comigo mesma e essa tranquilidade deixa-me mais calma. Tive muitos, nunca deixei de escrever, não só em diários mesmo mas como já referi, em blocos e algumas agendas!

Já depois do Nando #partir# rasquei e deitei fora alguns, fiquei com outros, duas agendas, dois ou três diários! Hoje deu-me para ler, dois, algumas partes... um entre 2003 e 2004 algumas coisas boas, muitos momentos passados a três, férias, trabalho, escola do meu filho, preocupações com o futuro,  uma parte onde escrevi: Gostava muito que ele conseguisse tirar um curso superior para poder ter uma vida melhor que a nossa" e li e reli e senti a nostalgia! pensei.: para que é que eu quero isto? o passado passou, não quero saber o que fiz ... li, também o dia em que o Nando bateu com o carro, o domingo que eu feliz, fiz o almoça em casa para os meus pais, o dia em que referi as preocupações com o futuro de meus pais, os dias em que me comecei a aperceber que a firma ia de mal a pior. O dia em que fiz a laqueação, etc etc etc.

Tomei uma decisão, "unilateral". Vou rasgar tudo, deitar tudo fora.... Até porque há certas passagens que decididamente esqueci e não quero relembrar! ao relembrar trás-me tristeza e dor!
É a primeira coisa que vou fazer amanhã, cedo mal me levantar.

Não quer dizer que não continue a escrever mas mais "soft" só mesmo o básico do dia a dia e numa agenda onde o espaço é pequeno e não dá para escrever grandes detalhes!

A nostalgia hoje deixou-me completamente sem ação, mais por pensar em alturas em que estava tudo bem... e que se foram e me fazem doer e muito!

sexta-feira, 31 de março de 2017